Sandra Maria

E Se o Bem e o Mal Não Existirem Como Nos Ensinaram?

Bem e Mal

13 de ago. de 2026

Há momentos em que o céu nos obriga a olhar para cima. E há momentos em que aquilo que acontece no céu nos faz olhar para dentro.

Foi isso que senti ao observar o eclipse.

Durante alguns instantes, o dia deixou de ser completamente dia. A noite ainda não tinha chegado, mas a luz diminuiu. Surgiu uma sombra entre dois mundos, uma fronteira onde já não sabemos muito bem onde termina um e começa o outro.

E foi aí que me surgiu uma reflexão antiga: e se o bem e o mal não forem exatamente aquilo que nos ensinaram a acreditar?

Não falo de desculpar a crueldade, a violência ou as atrocidades que acontecem no mundo. Há atos que provocam sofrimento real e pelos quais deve existir responsabilidade. A reflexão é outra: quem decide, afinal, onde termina o bem e começa o mal?

Desde sempre organizamos o mundo através de opostos: dia e noite, luz e escuridão, Sol e Lua, certo e errado, bem e mal. Talvez precisemos destas dualidades para compreender a realidade.

Mas um eclipse mostra-nos algo diferente.

O dia não desaparece. A noite não vence. A luz não é destruída. Existe apenas uma sombra momentânea entre duas realidades que continuam a coexistir.

E talvez a nossa consciência seja assim.

Ao longo da história, diferentes culturas e religiões criaram códigos para distinguir o certo do errado. Podemos chamar-lhes arquétipos universais da sombra humana: a ganância, a inveja, a arrogância, a violência, a falta de compaixão e tantos outros comportamentos que atravessam diferentes sociedades.

Mas existe algo fascinante: a mesma ação pode ser interpretada de formas completamente diferentes por duas pessoas.

Uma sente culpa. A outra sente que fez o que era certo. Uma acredita que ultrapassou uma fronteira moral. A outra acredita que defendeu aquilo em que acredita. Quem está certa? Será que existe uma resposta universal?

Talvez o bem e o mal tenham duas dimensões. Existe um bem e um mal coletivo, construído através de leis, culturas, religiões, valores sociais e crenças transmitidas ao longo de gerações. E existe o bem e o mal individual, aquele que vive dentro de cada um de nós. É a nossa consciência. Mas será a nossa consciência realmente nossa?

Aquilo que consideramos certo é realmente a nossa consciência a falar? Ou é a voz da nossa família, da nossa cultura, da religião, da sociedade e de tudo aquilo que nos ensinaram?

Basta olhar para o mundo atual. Para quase todos os acontecimentos existem defensores e opositores. Uns veem coragem, outros veem loucura. Uns veem justiça, outros injustiça. Uns veem liberdade, outros irresponsabilidade. E muitas vezes estamos todos a olhar para o mesmo acontecimento.

Talvez porque não vemos o mundo apenas como ele é. Vemos o mundo através da consciência que construímos.

As nossas experiências, medos, feridas, educação, valores e crenças funcionam como filtros invisíveis. E talvez sejam esses filtros que determinam aquilo que chamamos de bem e de mal.

Existe ainda uma dimensão simbólica que atravessa a humanidade: Sol e Lua, masculino e feminino, luz e sombra.

Em determinadas interpretações religiosas, a mulher ficou associada à transgressão através da figura de Eva e da famosa maçã. Acreditemos ou não na história, ela faz parte do nosso imaginário coletivo.

E isso mostra-nos que as nossas ideias sobre o bem e o mal não nasceram ontem. Foram construídas, repetidas e transmitidas ao longo de gerações.

Muitas vezes já nem sabemos se determinada crença é realmente nossa ou se simplesmente a herdámos.

Aquilo que considero certo é realmente a minha consciência a falar — ou é a voz de tudo aquilo que me ensinaram?

Talvez seja por isso que o eclipse seja uma metáfora tão poderosa.

Todos carregamos luz e sombra. Temos capacidade para amar e para ferir, para ajudar e para ignorar, para perdoar e para guardar ressentimento.

A questão talvez não seja eliminar a sombra.

Talvez seja tomar consciência dela.

Porque aquilo que não reconhecemos em nós pode acabar por controlar-nos.

Então, existe mesmo o Bem e o Mal?

Talvez sim. Mas talvez não da forma simples como aprendemos.

Por isso, talvez a pergunta mais interessante não seja:

“O que é o bem e o que é o mal?” Mas sim:

“Porque é que eu considero isto bom… e aquilo mau?”

E depois surge uma pergunta ainda mais inquietante:

“Essa resposta nasceu verdadeiramente em mim… ou alguém a colocou dentro de mim?”

Talvez seja nesse instante que começa o verdadeiro eclipse.

Não no céu. Dentro de nós.

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